30 dezembro, 2007

Do blog do Martinho (Blog Aldeia Giramundo)

Sobre a morte do meu querido amigo Big
Alguns colegas de profissão ou pensadores da Educação costumam dizer que não pode o professor diferenciar alunos, classes, etc..
Há um lado correto nesse argumento: vivemos num mundo de profundas desigualdades socias, raciais, culturais e adicionar à elas a discriminação educacional nada mais é do que ratificar e estimular o preconceito e a desigualdade.
Entretanto o ser humano é alguém em eterna construção, em movimento. Nesse sentido, o professor é um observador privilegiado, convive com centenas de personalidades em construção por alguns anos, procura estimular essa movimento, intenta destruir o que precisa ser deixado para trás e fracassa mais do que todos.
Durante essa jornada, encontramos consciências em ebulição. Centelhas revolucionárias em si e para o mundo. Indivíduos que se questionam e crescem a ponto de expandir seus limites para o outro lado do espelho. Alunos que passam por nós dessa forma ficam, inevitavelmente, marcados. Dão-nos esperança frente ao mundo caótico e injusto que vivemos. Como tratá-los igualmente aos cordeiros que pastam cotidianamente em sala de aula?
Há alguns anos tive de trabalhar numa classe "problema". Antes do ano letivo começar o diagnóstico já estava pronto: Monstros! Seria impossível qualquer trabalho educacional com o grupo do 1º Ano do Ensino Médio. Alguns recados foram dados, entre eles o de que imitavam animais quando o professor colocava-se de costas para a classe. Um colega se recusou a dar aulas para eles em todo o ensino médio, pois havia tido uma experiência horrível no último ano do ensino fundamental. O apocalipse me esperava.
Boa parte do diagnóstico se confirmou. A classe era realmente terrível de comportamento. Revi vários dos meus 'preconceitos' educacionais e comecei a aplicar métodos alternativos de ensino: como precisava parar várias vezes a aula e pedir silêncio, alongava a mesma por 30, 40 minutos até 'terminar' a matéria ( a aula deles era a última da sexta e alguns pais chegaram a reclamar com a coordenação por causa do meu atraso); mandei alguns alunos que imitavam bichos copiar páginas do dicionário, caso contrário estariam com Zero na prova, ou seja, apliquei tudo aquilo que é vetado em qualquer manual de Pedagogia do planeta.
Numa luta semanal entre aplicar o Pinochet e/ou o Piaget fui me aproximando de alguns alunos. Vários deles tornaram-se muito próximos nos anos que se passaram. A briga foi boa, pois meu objetivo era reverter o diagnóstico ( que até hoje tenho certeza que estava errado).
Uma das passagens mais engraçadas aconteceu com um aluno apelidado pelos colegas de "Big", porque pesava cerca de 130kg. Fernando "Big" era um dos mais 'problemáticos' da classe. Não parava um instante de falar( sempre alto), mas nunca agressivo, seu caráter era farreador e com o intuito de chamar a atenção para si. E lá ia eu tentando explicar a matéria e o Big falando no meio e cortando. Chegou uma hora eu cansei e olhei bem para a cara dele e propus o seguinte:- Se você não der mais um pio até o fim da aula eu pago 20 esfirras depois dela!
- Promete, perguntou Big- Nem um pio...
A aula transcorreu sossegada. O clima da classe foi de desafio. Todo mundo provocava o Big para ele falar, e ele nada, sentadinho ali na primeira carteira, parecia que colocara um zíper na boca. 30 minutos, 40, 60, a aula estava no fim e o Big quieto. Bateu o sinal e ele explodiu:
- Ganhei! Ganhei!
Saí da escola e ele estava lá na frente me esperando com o amigo Daniel. Fomos até o Habib´s, comprei as 20 esfirras. Big estava no banco de trás. Dei-lhe a caixa que estava fervendo de tão quente. Olhei pelo retrovisor e vi os olhinhos dele brilhando. Ele dobrava a esfirra redonda em 4 e enfiava de uma vez só na boca. Reclamava que queimara a língua. Eu pedia calma e chorava de dar risada. A escola ficava cerca de 5 quarteirões da lanchonete. Quando deixei-os lá, as esfirras tinham acabado. Daquele dia em diante passamos a nos olhar de outra forma. Percebemos que o humor nos aproximava.
Brigava às vezes com eles. Senti muita tristeza quando o Big, o Daniel e o Diego vieram pedir minha ajuda. Por rixas escolares eles haviam destruído as carteiras dos colegas do 3º ano. Percebi que eles me procuravam como um apoio, alguém que os entendia e que podia defendê-los perante à direção. No meio da conversa em que eles tentavam justificar a merda que tinham feito eles perguntaram:
- Mas você não é nosso amigo?
E eu respondi com uma dor no coração, pois gostava bastante deles, mas ciente dos erros, tive de ser firme e dizer com a razão:
- Não posso ser amigo de quem não se comporta como gente...
Ás vezes o Daniel ou o Diego reclamam para mim desse dia, mas eu precisava fazer aquilo para que eles entendessem que existe amizade, mas ela não pode estimular o erro e a repetição do mesmo por parte de quem gostamos.
Vieram as provas e o rendimento da classe foi bem acima do que eu esperava. Dos alunos mais próximos, Big teve a nota mais baixa: 5,5. Fiquei chateado, porque acreditava que ele tinha potencial, mas tomei um grande susto quando ele veio me agradecer com seu sorriso aberto e disse:
- É a nota mais alta que já tirei em Geografia...
Ás vezes conversava com ele, dava dicas, demonstrava confiança no rendimento dele e ele foi melhorando. Na última prova do 3º Bimestre ele teve 10! Chamei o nome dele por último: Fernando Radim Bueno e ele veio com cara desanimada. Pegou a prova, olhou, começou a sorrir, me abraçou bem forte,beijou meu rosto e falou para mim:
- Obrigado professor é o primeiro dez da minha vida. Vou mandar fazer um quadro e pregar no meu quarto....Senti a sinceridade da fala dele, a alegria imensa que ele sentia e percebi o caráter especial daquele aluno. Big era o apelido correto para ele, mesmo que depois ele tenha emagrecido. O tempo passou, ele prestou Direito em Sorocaba, fez o primeiro ano e largou. Ali não era o lugar dele, certamente. Foi fazer Filosofia na Unesp. Um dia nos encontramos na rua.
Ele me contou que adorava o curso de Filosofia, que Direito não tinha nada a ver com ele. Estava dando aulas de História e logo logo se formaria. Fiquei muito feliz. Big confirmara o que eu pensava dele: uma pessoa muito inteligente, em constante transformação, inquieto, um não conformista de que tanto necessitamos.
Hoje à tarde recebi a notícia de que fora ceifada tão promissora vida. Big faleceu no sábado, voltando de sua colação de grau. Meu coração está um pouco mais triste, pessoas como Fernando farão muita falta.
Martinho, se você soubesse a dimensão da nossa admiração por você, do carinho, do respeito...
Sim, nossa classe era bastante problemática. Ainda mais num ambiente onde não se tolerava a ousadia, opinião. Para nosso alívio, tínhamos professores como você e o Mafra. Grandes seres humanos!
Se hoje somos pessoas com absoluto senso crítico, vocês são os principais responsáveis. Ninguém nos compreendia. Nossos pais trabalhavam o dia todo e nossos grandes referenciais eram os professores de História e Geografia.
Lembro-me dos acontecimentos relatados por ti. E aproveito a oportunidade para confessar que era eu quem imitava boi... rs
Também me lembro do dia em que tive que copiar um baita editorial da Folha de São Paulo, correndo o risco de ficar com zero. Acabei junto com o sinal. Você nos mandou sentar, pegou todas nossas anotações, amassou e jogou fora. E emendou:
- Não está na hora de vocês irem trepar, não!!! rs
Enfim, boas lembranças... e o Big estava em todas elas. Sempre dizíamos: Big, Diego, eu e companhia, que aquela havia sido a melhor época de nossas vidas. Eu sempre disse que "éramos felizes e sabiamos", conforme relatou Big em um testemunho que fez pra mim no Orkut.
Peço desculpas se em algum momento te chateamos, Martinho. Você não merecia isso!
Um beijo grande!

Um comentário:

Diego disse...

Falar sobre o Big é muito fácil, por isso não vou me alongar muito.

Sempre que agente andava pelo pátio e havia crianças por perto, agente ouvia:

AÊÊÊ BIGUIIII!!!!!!!!!!!!!!!

Isso resume muito, mas não tudo.

Ele sempre demonstrou inteligência, mas nunca pra ser esnobe, só pra fazer humor, só pra fazer a melhor piada. E sempre ria como se a última piada ou o último acontecimento engraçado tivesse sido o melhor do universo.

E ele soube também usar sua inteligência pra estudar. Foi aos poucos mostrando o que ele podia fazer. Tinha um interesse genuíno por filosofia, falava de coisas complicadas como se fossem simples, como se fossem poesia, e o olho dele brilhava.

Às vezes eu fico pensando no que aconteceu e parece que eu ouço ele dizer, como dizia em nossos momentos difíceis: "Pô, Diego, não esquenta!".

Com o tempo agente foi deixando de se ver, as mudanças foram levando cada um pra um lado. Mas sempre que eu o via sentia uma vontade imensa de abraçá-lo. Como se eu o tivesse visto no dia anterior. Ele me dava o mesmo sorriso de criança, que eu guardo até agora.

É difícil ver sentido em certas coisas. Talvez o tempo nos ajude. Talvez ele já tenha a resposta, a resposta que a filosofia há muito busca!

Eu vou sempre lembrar de você, Big! Meu amigo highlander! Um grande abraço meu irmão!