15 janeiro, 2008

A pequena burguesia é mesmo intocável

Há algumas semanas postei o texto "No Brasil não existe pequena-burguesia" no blog Abacoros, recebi várias críticas, algumas ardidas e até me mandaram ler Foucoalt (de praxe). Outro dia resolvi postar o mesmo texto no Centro de Mídia Independente (CMI), um portal que, supostamente, publica textos livres e críticos do pensamento "anticapitalista" (é assim que eles se definem); no mesmo dia resolvi conferir se havia algum comentário quando, para a minha surpresa, deparei-me com esta mensagem:

"Esse artigo foi escondido porque estava em desacordo com a política editorial do site. Ele pode ser um artigo repetido (já publicado anteriormente), um artigo preconceituoso ou discriminatório, um ataque pessoal, propaganda comercial ou de partido político ou apenas um artigo que contraria a missão do CMI. Em caso de dúvida, contate o coletivo editorial: contato@midiaindependente.org "

No Brasil não existe pequena-burguesia

Percebi esses dias que a classe média (pequena-burguesia) no Brasil é um grupo intocável, ela simplesmente não é alvo de críticas.

Aparentemente ela não existe.

Equanto você tem opiniões diversas sobre os pobres e sobre os ricos, a classe média é o povo brasileiro. Identificamos o seu discurso quando eles se referm como o povo que paga impostos e ainda é obrigada a arcar com o convênio médico familiar e a escola do filho.

Na América Latina quando um esquerdista ou intelectual quer se referir a classe média ele usa o termo pequena-burguesia, no Brasil o termo simplesmente não é usado.

Apesar de Karl Marx se referir aos indivíduos desta classe por pequenos-burguêses, no Brasil o termo esta fora do discurso dos partidos socialistas, principalmente dos radicais.

Aqui existe o povo e a elite ou burguesia - a classe média faz parte do povo.

Eu ainda vou descobrir por que isso acontece no Brasil, se já não descobri.

Tenho ainda uma grande dúvida: Por quê no Brasil os partidos esquerdistas são tão influentes na classe média e tão insignificantes entre os trabalhadores?

Os partidos de esquerda fazem um dircurso direcionado a pequena-burguesia, mas eles não se assumem como pequena-burguesia, usam todas as palavras do vocabulário marxista, menos pequena-burguesia, é como se tivessem vergonha.

A classe média (pequena-burguesia) brasileira se formou ou se fez relevante na década de 70, ela lutou contra a ditadura militar/burguesa, infiltrou-se nos movimentos de esquerda e alçou, como diria Gramsci, a direção intelectual da sociedade.

Não ser socialista, para eles é uma coisa desconfortável por isso eles tem vergonha de ser pequenos-burgueses, até por que Marx e Lenin execravam os lideres pequeno-burgueses nos partidos socialistas.

A pequena-burguesia se define no maximo como classe média, mas classe média não é um conceito é um termo que não diz absolutamente nada. Classe média é uma coisa na Europa e outra na América, na Africa e no Islâ, pequena-burguesia é a mesma coisa em todos os lugares e é determinada historicamente.

***

O artigo repetido não é repetido,

não é um artigo preconceituoso,

nem discriminatório,

tão pouco um ataque pessoal,

Propaganda comercial?

Partido político?

Então qual é a missão do CMI?

Por quê uma crítica à classe média incomoda?

8 comentários:

alexandre disse...

Pois é, Fábio


Todos querem contra com o apoio da classe média (ops: pequena burguesia).

Por isto, nada de críticas.

Só elogios.

Mas eu digo: não estou nem aí. que vaõ todos a pqp.

Anônimo disse...

Prezado Fábio, o que seria a pequena burguesia?
Como podemos defini-la e em que medida ela difere daquilo que chamamos de classe média?

Senão me engano, na sociedade capitalista nós temos os donos dos meios de produção e aqueles que vendem a sua força de trabalho. A classe média está onde?
Alguns lucram enquanto outros recebem salários altos ou baixos, mas salários.
Será que o valor do salário é que determina ser ou não classe média e/ou pequena burguesia?

Será que Engels, que pagava as contas domésticas de Marx, era pequeno burguês ou classe média? E será que tinha vergonha de sê-lo?

Reinaldo disse...

Por fim, em tempos em que a luta de classes se aproxima da decisão, o processo de dissolução no seio da classe dominante, no seio da velha sociedade toda, assume um carácter tão vivo, tão veemente, que uma pequena parte da classe dominante se desliga desta e se junta à classe revolucionária, à classe que traz nas mãos o futuro.

Assim, tal como anteriormente uma parte da nobreza se passou para a burguesia, também agora uma parte da burguesia se passa para o proletariado, e nomeadamente uma parte dos ideólogos burgueses que conseguiram elevar-se a um entendimento teórico do movimento histórico todo. . . .

Os estados médios [Mittelstände] — o pequeno industrial, o pequeno comerciante, o artesão, o camponês —, todos eles combatem a burguesia para assegurar, face ao declínio, a sua existência como estados médios.

Não são, pois, revolucionários, mas conservadores. Mais ainda, são reaccionários, procuram fazer andar para trás a roda da história. Se são revolucionários, são-no apenas à luz da sua iminente passagem para o proletariado, e assim não defendem os seus interesses presentes, mas os futuros, e assim abandonam a sua posição própria para se colocarem na do proletariado.

Karl Marx e Friedrich Engels (1848), Manifesto do Partido Comunista

Anônimo disse...

Caro Reinaldo, Marx é bom, mas datado.
E também erra.
Datado: a classe média e/ou pequena burguesia européia não é e nem poderia ser a mesma coisa no século XIX e XXI.
Erra: os camponeses foram os maiores revolucionários de esquerda.
Cuba, China e Rússia são revoluções camponesas.
MST ou Canudos são camponeses.
Todos eles lutaram para assegurar/conservar a sua existência, não como estados médios (seja lá o que isso signifique), mas a existência de seu modo de vida incompatível com os moldes capitalista de pensar, viver e consumir. Daí seu conservadorismo revolucionário.


Uma dúvida: A “pequena parte da classe dominante (que) se desliga desta” e “passa para o proletariado, nomeadamente uma parte dos ideólogos burgueses” possuia meios de produção e, por isso, era burguesa ou era burguesa porque pensava e/ou elaborava a ideologia burguesa?
Dá pra ter burguês sem propriedade? Só na conversa!?!?!

Anônimo disse...

Uma cultura política desenvolvida em contraposição ao capitalismo e sua lógica pode ser um definidor de identidade para um número muito mais amplo de atores sociais, forças políticas e núcleos de pensamento crítico que o recorte tradicional da “classe operária”. Ontem e hoje.

Fábio Correa disse...

Eu tenho uma definição para a classe média que serve para os séculos XIX, XX e XXI:

A classe média é um grupo de indivíduos empenhados a todo instante em ascender-se individualmente para se tornar burguesia e nesse momento ela luta contra a própria burguesia dominante; ao mesmo tempo, a classe média permanece num constante pavor de se tornar “proletária” - momento em que ela se apóia na burguesia estabelecida, tentando identificar-se com ela e se diferenciando do povo.

Assim, a pequena-burguesia de Marx e nossa classe média não existem como classe, a classe média pois ela não se identifica como tal, não tem consciência de classe e esta em permanente luta contra si própria e pode tornar-se a qualquer momentos o inverso daquilo que almeja – proletária.

A classe média é confusa e indecisa, nunca vai chegar ao poder e será sempre um reservatório de força social a disposição das verdadeiras classes revolucionárias: burguesia e trabalhadores. Não devemos tratar a pequena-burguesia com desrespeito ( muitos revolucionários tem origem na classe média) mas devemos denunciar com veemência o discurso pequeno-burguês dentro da esquerda e do movimento socialista.

Anônimo disse...

fabio, na boa, esse negócio de classe média não passa de discurso para meia dúzia de sindicalistas se dizer vanguarda revolucionária.

20 anos sem operar uma máquina, mas jura ser mais "combativo e revolucionário" do que você, pelo simples fato de você ser estudante classe média, e ele, "trabalhador".

Já viu esse filme!?!?!
Eu não reproduzo!!!!

Anônimo disse...

"pelo simples fato de você ser estudante classe média, e ele, 'trabalhador'"?